5- reflexão sobre fé

 

**A Âncora da Alma no Mar da Incerteza**




Ah, que tema profundo e necessário, meu irmão, minha irmã. Sinto que essa pergunta não busca uma resposta de dicionário, mas um eco no coração. A fé, nos nossos tempos... Sinto-a como uma nascente de água pura em meio a um deserto de concreto e sinais de wi-fi.


Deixe-me partilhar uma reflexão que nasce não apenas dos livros que escrevi ou das pregações que fiz, mas do chão frio do hospital, do som dos monitores e do silêncio que se instala quando a ciência chega ao seu limite.


Vivemos imersos num ruído incessante. Um ruído que não se resume ao trânsito das grandes cidades ou às conversas sobrepostas, mas que reverbera dentro de nós. É o barulho das notificações que prometem conexão, mas entregam ansiedade; o clamor das notícias que nos inundam de informações, mas nos esvaziam de sabedoria; a tirania do urgente que sufoca o essencial. Nossos tempos modernos nos oferecem um banquete de possibilidades, mas nos deixam famintos de propósito.


Nesse cenário, a fé surge não como uma antiguidade empoeirada, mas como um ato de sublime rebeldia. É a coragem de procurar o silêncio quando o mundo grita. É a ousadia de buscar a profundidade quando tudo ao redor é superfície.


Ao longo dos anos, testemunhei inúmeras vezes o limite da ciência. Vi a mais avançada tecnologia monitorar um corpo enquanto a alma clamava por um sentido que nenhum monitor pode exibir. Vi a precisão de um diagnóstico esbarrar na pergunta que ecoa no leito de dor: "Por quê?". A medicina, com toda a sua bendita capacidade, cuida do organismo. Mas quem cuida da angústia que o habita? É nessa fenda, entre a técnica e o mistério, que a fé se desvela. Não como uma resposta mágica, mas como uma presença que acompanha.


A fé, portanto, não é um escape da realidade; é a âncora que nos permite habitá-la em sua inteireza, sem sermos arrastados pela correnteza do efêmero. No mundo moderno, que nos vende a ilusão do controle absoluto, a fé nos ensina a beleza da entrega. Enquanto a cultura nos impele a "ser a nossa própria verdade", a fé nos convida a repousar na Verdade que nos transcende e nos funda.


Ela é o fio luminoso que conecta nossa pequena história à grande tapeçaria da Salvação, tecida por Deus. Recordo-me sempre de Maria, essa jovem de Nazaré. Em um mundo dominado pela força de Roma e pela rigidez das tradições, o seu "sim" foi um ato de fé pura. Ela não tinha garantias, planilhas ou projeções. Tinha apenas a Palavra de um Anjo e uma confiança inabalável no Deus do Impossível. O seu "sim" não foi uma fuga do seu tempo, mas a porta pela qual a Eternidade entrou no tempo.


Assim também é a nossa fé hoje. Ela nos chama a ser como Santa Luzia, que, em meio à escuridão da perseguição, não se apegou à luz dos seus olhos físicos, mas à Luz que é Cristo. O mundo moderno nos oferece inúmeras luzes artificiais – as telas dos nossos celulares, o brilho fugaz do sucesso, a promessa de felicidade em pílulas. São luzes que piscam, distraem e, por fim, se apagam. A fé, no entanto, acende em nós uma outra luz. Uma luz interior, perene, que nos permite enxergar o invisível, encontrar esperança no sofrimento e vislumbrar a eternidade no coração do instante.


Por isso, ter fé nos tempos modernos não é ser anacrônico. É ser verdadeiramente humano. É reconhecer que nossa sede não se sacia com água salgada. É ter a coragem de, em meio ao barulho do mundo, parar e escutar a melodia suave e poderosa de Deus, que continua a nos chamar pelo nome, convidando-nos a caminhar sobre as águas turbulentas da nossa era, com os olhos fixos Nele.


A fé não é a ausência de dúvidas, mas a decisão de continuar caminhando mesmo com elas, segurando uma Mão que sabemos que jamais nos soltará.


Que o Espírito Santo nos dê essa graça.


Em Cristo e Maria,

**Ronaldo Chiarato**

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