1- **Quando o Silêncio Também é Oração**
Que a paz de Cristo e o amor de Maria estejam com você.
### **Quando o Silêncio Também é Oração**

Fomos ensinados, desde tenra idade, que a oração é um diálogo feito de palavras. Aprendemos a recitar, a pedir, a louvar e a agradecer com frases bem construídas, como se estivéssemos preenchendo um formulário para o céu. E não há nada de errado nisso; a oração vocal é um pilar de nossa fé, um caminho bendito para nos conectarmos com o Pai.
Contudo, a vida, em sua sabedoria misteriosa, frequentemente nos empurra para além das fronteiras do verbo. Ela nos apresenta a situações onde o dicionário da alma se esgota e as palavras se tornam insuficientes, quase profanas, diante da magnitude do que sentimos. É nesse território árido, nesse deserto do discurso, que descobrimos a sublime teologia do silêncio.
Em meus 26 anos como técnico de enfermagem, caminhei por corredores que eram verdadeiros santuários de silêncios eloquentes. O bip intermitente de um monitor cardíaco, o sussurro de uma família em vigília, o roçar suave de um lençol — todos esses sons eram apenas a moldura para um silêncio muito mais profundo. O silêncio de um paciente cujo corpo já não responde, mas cujo espírito trava uma batalha invisível. O silêncio de uma mãe segurando a mão do filho, oferecendo em um gesto mudo toda a sua existência. O silêncio de quem acabou de receber uma notícia que fratura a vida em um "antes" e um "depois".
Eu vi nesses silêncios as orações mais autênticas que um ser humano pode fazer. Eram orações de entrega, de dor nua e crua, de esperança teimosa, de amor que se recusa a desistir. Não havia pedidos, não havia barganhas. Havia apenas presença. Uma presença que se abria, vulnerável, diante do Mistério. E eu aprendi, ali, que Deus não precisa de nossos fonemas para compreender a linguagem do coração. Ele é fluente nos suspiros da alma.
Lembro-me do profeta Elias no Monte Horeb. Ele esperava encontrar Deus na tempestade, no terremoto, no fogo avassalador. Mas o Senhor não estava no espetáculo ruidoso. Ele se manifestou na "brisa suave", no som de um silêncio delicado (cf. 1 Reis 19, 11-13). Quantas vezes, em nossa própria vida, buscamos a voz de Deus no barulho de nossos pedidos frenéticos, em nossas novenas ansiosas, quando, na verdade, Ele nos espera no silêncio que se segue, nesse espaço sagrado onde nosso eu se cala para que Ele possa falar?
E como não pensar em Maria, a Senhora do Silêncio? Aos pés da Cruz, que palavras Ela poderia ter dito? Todo o vocabulário humano se desintegraria diante daquela dor transcendente. Seu silêncio não era resignação passiva, mas uma comunhão inefável com o sacrifício de seu Filho. Era um silêncio que continha toda a fé, toda a dor e toda a esperança da humanidade. Seu silêncio era a oração mais perfeita, um "sim" contínuo, ecoando desde a Anunciação até o Calvário.
O silêncio, então, não é ausência, mas uma presença diferente. É despojar-se das armaduras verbais com as quais tentamos controlar ou entender a realidade. É admitir nossa pequenez. É simplesmente *estar* diante de Deus, com tudo o que somos e sentimos, sem a necessidade de traduzir o caos interior em frases coerentes. O apóstolo Paulo nos conforta ao dizer que "o próprio Espírito intercede por nós com gemidos inexprimíveis" (Romanos 8, 26). Nossos silêncios dolorosos são o espaço onde o Espírito Santo geme em nós e por nós.
Portanto, meu irmão, minha irmã, não tema os momentos em que as palavras lhe faltarem. Não se sinta um mau cristão quando, na capela ou em seu quarto, tudo o que você consegue oferecer a Deus é o peso do seu silêncio. Abrace esse momento. Ele é sagrado. É ali, nesse lugar sem ruídos, que seu coração está mais exposto e, paradoxalmente, mais protegido. É ali que a dor é acolhida sem julgamentos e a esperança é reconstruída, não com promessas vazias, mas com a certeza de uma Presença que permanece, mesmo quando todo o resto se vai.
O silêncio é o solo sagrado onde a semente da fé germina para, enfim, florescer em esperança. Pois, no fim das contas, a oração mais profunda não é a que é ouvida pelos ouvidos, mas a que é sentida pelo coração de Deus.
Na bênção do Pai, no amor do Filho e na comunhão do Espírito Santo.
**Ronaldo Chiarato**
*Servo, pregador e autor*
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