2- ### **O Tear da Alma: Tecendo Ficção com os Fios da Realidade e da Fé**

Paz e bem!


Que alegria poder partilhar convosco uma reflexão que me é tão cara, um tema que pulsa no âmago do meu ser como escritor, como servo e como homem.


### **O Tear da Alma: Tecendo Ficção com os Fios da Realidade e da Fé**


Em meus 26 anos como técnico de enfermagem, meus olhos testemunharam o prefácio e o epílogo de inúmeras vidas. Vi o primeiro choro do recém-nascido ressoar pelos corredores como um hino à existência e presenciei o último suspiro se esvair em um silêncio que clamava pela eternidade. Entre um extremo e outro, desvelou-se diante de mim o vasto e complexo tecido da condição humana: a dor que molda, o amor que redime, o medo que paralisa e a coragem que transcende.


Essa realidade, por vezes crua e implacável, poderia facilmente se tornar um fardo, uma fonte de cinismo. Contudo, é precisamente nesse solo árido que a semente da ficção encontra seu mais fértil terreno. Pois o que é a ficção, senão a tentativa da alma de ordenar o caos, de encontrar sentido naquilo que parece não ter?


As crônicas de ficção que brotam dessa vivência não são fugas da realidade. Ao contrário, são mergulhos mais profundos nela. São a arte de tomar um rosto anônimo visto num leito de hospital, um fragmento de conversa ouvido ao acaso, uma lágrima silenciosa que conta uma história inteira, e dar a essa centelha de vida um universo, uma jornada, uma voz. A ficção nos permite explorar os "e se..." da existência. E se aquela mãe que perdeu o filho encontrasse uma razão para sorrir de novo? E se aquele jovem desiludido descobrisse um propósito sublime em meio à sua escuridão?


É aqui que a fé entra, não como um elemento mágico que apaga o sofrimento, mas como a luz que ilumina a tapeçaria, revelando os fios de ouro da graça que perpassam até mesmo as tramas mais sombrias. A fé nos dá a linguagem para nomear o inefável. Ela nos empresta a gramática da esperança. Sem ela, a ficção inspirada na realidade humana seria apenas um retrato da dor. Com ela, torna-se um ícone da Redenção.


Quando escrevo, não invento sentimentos. Eu os tomo emprestados da vida. O que a ficção faz é criar um laboratório seguro para a alma, onde podemos confrontar nossos maiores medos, nossas mais profundas feridas e nossas mais audaciosas esperanças através de personagens que caminham por nós. Como as parábolas do Mestre, a narrativa ficcional não precisa ser factualmente verdadeira para comunicar uma verdade que é eterna e universal. Ela é uma "mentira" que nos conta a maior das verdades: a de que não estamos sozinhos e de que cada vida, por mais frágil que pareça, tem um valor e um sentido transcendentes.


Recordo-me de uma ocasião, ao lado de um paciente em seus momentos finais, cuja família rezava em voz baixa. Não havia mais nada que a ciência pudesse fazer. Mas naquele ambiente, saturado de impotência humana, a fé tecia uma narrativa de passagem, de encontro, de um "até breve". Aquela cena, com toda a sua densidade, tornou-se para mim matéria-prima, não para ser copiada, mas para ser honrada em uma história que pudesse levar a outros corações a mesma esperança que ali ressoava.


Portanto, as crônicas de ficção, quando nutridas pela realidade e iluminadas pela fé, transformam-se em mais do que entretenimento. Elas se tornam um serviço, uma forma de pregação silenciosa, um bálsamo. São um convite para que o leitor olhe para sua própria vida — com suas alegrias, suas dores e suas encruzilhadas — e a enxergue não como uma sucessão de eventos aleatórios, mas como uma sublime história de salvação que Deus, o Autor da Vida, escreve com amor em cada um de nós.


Que possamos sempre encontrar, nas boas histórias, um eco da Grande História que nos envolve a todos.


Com meu abraço fraterno, em Cristo e sob o manto de Maria.


**Ronaldo Chiarato**


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