# O Alcançar do Inesperado: O Fiat em Nazaré

 Com a alma de escritor e o coração de servo, apresento esta reflexão.


# O Alcançar do Inesperado: O Fiat em Nazaré


Nazaré era um povoado insignificante, um emaranhado de casas modestas e caminhos empoeirados, aninhado nas colinas da Galileia. Longe do esplendor de Jerusalém, era um lugar onde a vida seguia um ritmo ditado pelas estações e pelas exigências da lavoura, um reduto de cotidiano sem grandes pretensões. E foi precisamente ali, nesse cenário de aparente esquecimento, que o Eterno decidiu rasgar o véu do tempo. O **Fiat em Nazaré** não é apenas um evento histórico; é o epicentro de um terremoto de graça que reconfigurou a geografia da salvação, demonstrando que Deus escolhe o que é pequeno para realizar o incomensurável.


Existe uma poesia divina na escolha de Nazaré. Enquanto o mundo buscava sinais de poder nos palácios de Roma e na grandiosidade do Templo de Jerusalém, Deus sussurrava Seus planos no coração de uma jovem, em uma aldeia da qual se dizia: *“Pode vir alguma coisa boa de Nazaré?”* (Jo 1,46). Essa pergunta, carregada de ceticismo, ecoa até hoje, e a resposta continua a ser o "Sim" de Maria, um sim que transformou a insignificância em berço do Infinito.


Neste artigo, convido você, meu irmão e minha irmã, a caminharmos juntos por essas veredas poeirentas da Galileia. Não como meros espectadores, mas como peregrinos que buscam compreender a profundidade contida naquele instante singular, quando o Céu tocou a Terra e uma virgem se tornou o ponto de inflexão da história humana.


## Nazaré: O Palco do Divino Silêncio


Para entender a magnitude do **Fiat de Maria**, é preciso primeiro contemplar o palco escolhido por Deus: Nazaré. Aquele não era um lugar de profetas famosos ou de grandes acontecimentos bíblicos. Era a terra do anonimato, do trabalho silencioso, da vida que transcorre sem alardes. E é exatamente nesse silêncio que a Palavra de Deus encontra ressonância.


O mundo moderno, com seu ruído incessante, nos ensina a valorizar o que é grande, visível, aplaudido. Buscamos relevância em números, em reconhecimento, em posições de destaque. Deus, em Sua pedagogia sublime, inverte essa lógica. Ele nos mostra em Nazaré que o terreno mais fértil para a Sua ação é a **humildade**. A poeira de Nazaré, pisada por pés anônimos, tornou-se mais sagrada que o mármore dos palácios, pois foi ali que a promessa encontrou um coração disposto.


Como escritor, confesso que sou fascinado por essa escolha. Ela me ensina que as maiores histórias não nascem necessariamente dos grandes centros de poder, mas dos cantos esquecidos onde a alma está atenta. Maria vivia nesse silêncio. Sua vida era uma tapeçaria de oração, serviço e simplicidade. Ela não precisava de distrações para preencher seus dias, pois seu coração já estava preenchido pela expectativa do Messias. O silêncio exterior de Nazaré era um reflexo do silêncio interior de Maria, um espaço sagrado onde o Anjo Gabriel pôde ser ouvido com clareza.

*Uma jovem de Nazaré, de traços simples e vestes hebraicas, dentro de uma casa modesta de pedra. Um feixe de luz dourada e intensa entra pela janela, iluminando seu rosto, que expressa uma mistura de surpresa, profunda reflexão e serenidade. O ambiente é simples, com utensílios de barro e um tear manual ao fundo. A atmosfera é de santidade e assombro silencioso. 



## "Alegra-te, Cheia de Graça": Uma Saudação que Redefine a História


A cena da Anunciação começa com uma saudação que não é trivial. O Arcanjo Gabriel não diz "Olá, Maria". Ele a renomeia com sua própria essência: *“Alegra-te, cheia de graça (Kecharitomene)! O Senhor está contigo”* (Lc 1,28). Este não é um mero elogio; é uma declaração de identidade. "Cheia de Graça" é o novo nome de Maria, dado pelo próprio Céu.


Ao escrever meu livro *"Maria, a Mãe de Deus: Plenitude da Graça"*, mergulhei profundamente no significado dessa palavra grega, *Kecharitomene*. Ela descreve um estado de ser, uma plenitude de graça que já existia nela desde sua concepção, preparando-a para a missão que lhe seria confiada. Ela é a obra-prima da graça de Deus, preservada do pecado para ser o tabernáculo puro do Filho de Deus.


A reação de Maria é de uma prudência e inteligência admiráveis. Ela *“ficou perturbada com estas palavras e começou a pensar qual seria o significado da saudação”* (Lc 1,29). Ela não duvida, mas pondera. Ela interroga o mensageiro para compreender a vontade de Deus, não para contestá-la. Sua pergunta, *“Como acontecerá isso, se eu não conheço homem?”* (Lc 1,34), não é um sinal de incredulidade, mas de uma fé que busca entender para poder aderir mais perfeitamente ao plano divino. É a pergunta de uma alma pura que já havia consagrado sua virgindade a Deus e agora busca conciliar seu propósito com a nova e avassaladora proposta divina. Aprofundar-se na [obediência e fé de Maria]({{internal:a-jornada-de-fe-e-obediencia-de-maria}}) é entender o coração da nossa própria fé.


Essa interação revela uma intimidade única entre a criatura e o Criador. Deus não impõe, Ele propõe. Ele dialoga, espera, respeita a liberdade daquela que Ele mesmo criou.


## O Que Significa o "Fiat" de Maria?


Após a explicação do Anjo sobre a ação do Espírito Santo, chegamos ao clímax, ao momento que segura a respiração do universo: *“Eis aqui a serva do Senhor. **Faça-se em mim segundo a tua palavra**”* (Lc 1,38). Em latim, *Fiat mihi secundum verbum tuum*. O "Fiat".


Esta pequena palavra latina, "Fiat", que significa "Faça-se", é muito mais do que um simples "sim".

*   **Não é um sim passivo:** Não é uma resignação. É uma adesão ativa, criativa e total. É como se Maria dissesse: "Senhor, meu ser inteiro está à sua disposição. Use-me como instrumento. Realize em mim a Tua obra".

*   **É o antídoto para o "não" de Eva:** No Jardim do Éden, Eva, diante da proposta da serpente, duvidou da Palavra de Deus e disse "não" à vontade divina, trazendo a desordem. Em Nazaré, Maria, a Nova Eva, diante da proposta do Anjo, confia na Palavra de Deus e diz "sim", permitindo que a Salvação entrasse no mundo. É a restauração da harmonia original.

*   **É um ato de liberdade suprema:** O "sim" de Maria foi pronunciado em plena liberdade. Como afirma o Catecismo da Igreja Católica(CIC 488–490)Par, ela foi "solicitada, não forçada". Seu consentimento era indispensável. Deus, em Sua onipotência, fez-Se "dependente" do livre arbítrio de uma de Suas criaturas. Que mistério de amor e humildade!

Essa afirmação está no Catecismo da Igreja Católica, principalmente nos números 488 e 489 (complementados pelo 490). Eis a localização precisa e o sentido de cada trecho:

"CIC 488
Aqui o Catecismo afirma explicitamente que a Encarnação não foi imposta:

“Deus enviou o anjo Gabriel a uma virgem de Nazaré chamada Maria, a fim de obter o consentimento dela.”
É neste número que aparece a ideia central de que Maria foi “solicitada, não forçada”.

CIC 489
Este parágrafo aprofunda o mistério que você citou:

“Ao longo de toda a Antiga Aliança, a missão de Maria foi preparada. (…) Para se tornar Mãe do Salvador, Maria foi dotada por Deus de dons dignos de tão grande missão.”
Aqui está implícita a noção de que Deus, em sua onipotência, quis depender do livre consentimento de uma criatura.

CIC 490
Neste número, o Catecismo afirma de forma direta:

“Para ser a Mãe do Salvador, Maria foi enriquecida por Deus com dons dignos de tão grande missão.”
E confirma que o “faça-se” de Maria foi um ato livre e consciente, indispensável ao plano divino."


O **Fiat de Maria** é, portanto, a porta pela qual o Rei da Glória entra em Sua própria criação. É a resposta humana perfeita ao chamado divino, um ato de fé, obediência e abandono que se torna o modelo para todo cristão.


## As Ondas de um "Sim": A Encarnação e a Nova Aliança


No instante em que Maria pronunciou seu "Fiat", o universo mudou para sempre. O Verbo Eterno, a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, assumiu uma natureza humana no ventre puríssimo da Virgem. *“E o Verbo se fez carne e habitou entre nós”* (Jo 1,14). Este é o mistério da **Encarnação**.


As consequências daquele "sim" são como ondas que se propagam pelo oceano do tempo, alcançando cada um de nós hoje.

1.  **A Reconciliação do Céu e da Terra:** Com a Encarnação, a natureza divina e a natureza humana se unem na pessoa de Jesus Cristo. O abismo criado pelo pecado começa a ser preenchido.

2.  **A Inauguração da Nova Aliança:** O "sim" de Maria abre caminho para o "sim" de Cristo no Getsêmani e na Cruz. A obediência dela permite a obediência redentora de seu Filho.

3.  **A Maternidade Divina e Universal:** Ao se tornar Mãe de Deus (*Theotokos*), Maria se torna também nossa mãe na ordem da graça. Seu "sim" a Jesus é um "sim" a todo o Corpo de Cristo, que é a Igreja. Não podemos entender a Igreja sem olhar para aquela que a gestou primeiro em seu ventre.


Como servo da Renovação Carismática Católica, vejo no **Fiat em Nazaré** a ação primordial do Espírito Santo. Foi pelo poder do Espírito que o Verbo se encarnou. É o mesmo Espírito que hoje nos convida a dizer nosso próprio "sim", a permitir que Cristo nasça e cresça em nossos corações e em nossas comunidades. A experiência do Batismo no Espírito Santo é, de certa forma, um eco pessoal daquele momento em Nazaré, quando o Espírito nos cobre com Sua sombra e nos capacita para uma nova vida em Cristo. Entender [como o Espírito Santo age em nossa vida]({{internal:o-poder-transformador-do-espirito-santo}}) é fundamental.


## Como Viver o Nosso Próprio "Fiat" no Cotidiano?


A história do **Fiat em Nazaré** poderia parecer distante, um evento grandioso demais para nossa pequena realidade. Mas a verdade é o oposto: ela foi escrita para nos ensinar a santificar nosso cotidiano. Cada um de nós tem a sua própria "Nazaré": nossa casa, nosso trabalho, nossos relacionamentos, nossas lutas internas. E é nesse cenário que Deus nos visita e nos faz uma proposta de amor.


Viver nosso "Fiat" hoje significa:

*   **Acolher a Vontade de Deus na Rotina:** Dizer "sim" à paciência com um familiar difícil, à honestidade no trabalho, ao perdão que nos custa, à oração quando sentimos secura espiritual. São "fiats" pequenos, mas que tecem uma vida de santidade.

*   **Confiar na Providência em Meio à Incerteza:** Maria não tinha um mapa completo do que seu "sim" implicaria. Ela sabia que seria a Mãe do Salvador, mas não conhecia os detalhes da Fuga para o Egito, da vida em Nazaré, da dor aos pés da Cruz. Ela confiou. Nosso "fiat" é também um ato de confiança cega no Pai, que sabe o que faz, mesmo quando não entendemos.

*   **Ser "Servo do Senhor":** A postura de Maria é de serviço. "Eis a serva...". Ela se coloca em uma posição de total disponibilidade. Isso significa perguntar a Deus não "o que eu quero?", mas "Senhor, o que Tu queres de mim? Como posso servir-te hoje, nesta pessoa, nesta situação?".


A espiritualidade do Fiat não é para poucos escolhidos. É o chamado universal à santidade. É a decisão diária de permitir que a Palavra de Deus se faça carne em nossas ações, palavras e pensamentos.


## O Escândalo da Humildade: Por Que Deus Escolheu o Pequeno?


A lógica do mundo exalta a autossuficiência. A lógica de Deus exalta a dependência Nele. A escolha de Nazaré e de Maria é o "escândalo" da humildade divina. Deus, que é Todo-Poderoso, escolhe manifestar-Se na fraqueza, na pequenez, no que o mundo despreza. *“Deus escolheu o que no mundo é fraco para confundir o que é forte”* (1Cor 1,27).


Essa escolha tem um propósito profundo:

*   **Para que a Glória seja somente de Deus:** Se Deus tivesse escolhido uma rainha em um palácio, o mérito poderia ser atribuído à sua posição ou riqueza. Ao escolher uma virgem desconhecida de Nazaré, fica claro que toda a obra é de Deus.

*   **Para se fazer próximo de nós:** Ao entrar no mundo pela porta dos fundos, pela simplicidade e pobreza, Deus se torna acessível a todos, especialmente aos humildes e marginalizados. Ele não nos espera no topo da montanha do poder; Ele desce ao nosso vale de simplicidade.

*   **Para nos ensinar o verdadeiro caminho:** Cristo dirá mais tarde: *“Aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração”* (Mt 11,29). A encarnação em Nazaré já é a primeira lição dessa escola de humildade.


O **Fiat em Nazaré** é, em última análise, o triunfo da humildade sobre o orgulho, da graça sobre o pecado, do amor sobre o egoísmo. É um convite a despojarmos de nossas falsas seguranças e a encontrar nossa verdadeira força na pequenez que se abre à onipotência de Deus. O site da [Catholic Answers] oferece excelentes recursos sobre a humildade dos santos como modelo para nós.


O alcançar do inesperado aconteceu não através da força, mas da entrega. A maior revolução da história começou com um sussurro de fé em uma aldeia esquecida. Que possamos, inspirados por Maria, ter a coragem de sussurrar nosso próprio "Fiat" hoje, em nossa Nazaré particular, e permitir que Deus realize o inesperado também em nós.


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## Perguntas Frequentes


### ### Por que o Fiat de Maria é tão importante para os católicos?

O Fiat de Maria é fundamental porque foi o consentimento humano livre que permitiu a Encarnação do Filho de Deus. É o momento em que a humanidade, na pessoa de Maria, colabora ativamente com o plano de salvação, tornando-a a Mãe de Deus (*Theotokos*) e a porta pela qual Cristo entrou no mundo.


### ### O que a palavra "Kecharitomene" ("Cheia de Graça") realmente significa?

*Kecharitomene* é um particípio perfeito passivo em grego, que significa que Maria foi "cumulada de graça" em um tempo passado, com efeitos que perduram no presente. A teologia católica interpreta isso como uma referência à sua Imaculada Conceição, ou seja, ela foi preservada do pecado original desde o primeiro instante de sua existência para ser uma morada digna para Deus.


### ### Nazaré era realmente uma cidade sem importância nos tempos de Jesus?

Sim, os registros históricos e arqueológicos indicam que Nazaré era uma pequena aldeia agrícola, com pouca ou nenhuma relevância política, econômica ou religiosa na Galileia do século I. Sua insignificância torna a escolha de Deus para a Anunciação ainda mais teologicamente profunda, destacando Seu amor preferencial pelos humildes.


### ### Como posso aplicar o "sim" de Maria na minha vida diária?

Você pode aplicar o "sim" de Maria aceitando as pequenas e grandes vontades de Deus em sua rotina: praticando a caridade quando é difícil, buscando a oração mesmo sem vontade, cumprindo seus deveres com amor e oferecendo seus sofrimentos. Cada ato de obediência à vontade de Deus, por menor que seja, é um eco do Fiat de Maria.


### ### A Anunciação é um evento focado apenas em Maria?

Embora Maria seja a protagonista humana, a Anunciação é um evento Trinitário. Deus Pai envia o Anjo, o Espírito Santo desce sobre Maria para realizar a concepção, e o Filho se encarna em seu ventre. É um momento que revela o amor e a ação conjunta da Santíssima Trindade para a salvação da humanidade. É o início do cumprimento da promessa de [Deus se fazendo homem para nos salvar]({{internal:o-misterio-da-encarnacao-deus-homem}}).


**Ronaldo José Cenci Chiarato** - @autor.ronaldochiarato

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