3. Testemunho — Aprender a cuidar como Jesus cuidava
Paz e bem, meus irmãos.
Testemunho — Aprender a cuidar como Jesus cuidava
É com o coração repleto de memórias e com a alma marcada por inúmeros encontros que me sento para partilhar algo que ressoa em mim com a força de um chamado. Ao longo destes 26 anos entre corredores assépticos, o bip incessante dos monitores e o cheiro que mistura antisséptico e fragilidade humana, eu aprendi que a minha profissão era muito mais do que a carteira do conselho de enfermagem me autorizava a fazer.
No início, como todo jovem profissional, eu estava focado na técnica. A precisão de uma punção venosa, a correta diluição de um medicamento, a exatidão na aferição dos sinais vitais. Eram protocolos, passos, uma ciência que visava a manutenção da vida biológica. Mas, noite após noite, plantão após plantão, eu me deparava com algo que os manuais não ensinavam: o olhar. O olhar de quem tem medo, de quem sente dor, de quem se vê despojado de sua autonomia e dignidade, reduzido a um número de leito ou a uma patologia.
Eu sabia como tratar a pneumonia, mas não sabia como acalmar a angústia que sufocava mais que a própria doença. Eu trocava um curativo com perícia, mas sentia-me impotente para tocar a ferida da solidão. Foi nesse deserto de suficiência técnica e insuficiência humana que a minha fé começou a irrigar a minha prática. Foi a fé que desvelou para mim uma dimensão transcendente do cuidado.
Comecei a olhar para o Evangelho não mais apenas como um livro de espiritualidade, mas como o maior e mais sublime manual de cuidados que já existiu. Jesus não curava à distância. Ele olhava nos olhos, como fez com Zaqueu. Ele se abaixava para tocar, como fez com o leproso, quebrando barreiras sociais e religiosas. Ele parava, escutava, e se deixava interromper, como fez com a mulher hemorroíssa em meio à multidão. Ele não tratava apenas a enfermidade; Ele restaurava a pessoa inteira.
Percebi, então, que cada leito à minha frente não era apenas um espaço físico, mas um altar. Cada paciente, um sacrário vivo onde o próprio Cristo, em sua Paixão, se deixava encontrar. O quarto do hospital se tornou para mim um território sagrado, e eu, ao adentrá-lo, precisava tirar as sandálias do meu orgulho, da minha pressa, da minha autossuficiência.
Cuidar como Jesus cuidava passou a significar, para mim, o ministério da presença. É permanecer ao lado de um leito em silêncio quando as palavras já não fazem sentido. O silêncio, muitas vezes, é a mais eloquente das orações partilhadas. É segurar uma mão trêmula, não apenas para sentir o pulso, mas para transmitir segurança e dizer, sem voz: "Você não está sozinho". É respeitar o tempo do outro, sua história, suas crenças, seu choro. É ser João e Maria aos pés da cruz do sofrimento alheio, permanecendo quando todos os outros, por pressa ou desconforto, já foram embora.
Essa transformação não tornou o sofrimento menos doloroso, nem a morte menos misteriosa. Mas deu a tudo um novo sentido. Meu trabalho deixou de ser uma sucessão de tarefas para se tornar uma liturgia, um serviço sagrado. Descobri que o maior milagre que eu podia testemunhar não era a cura do corpo, que nem sempre vem, mas a paz que inunda uma alma quando ela se sente vista, amada e respeitada em sua dignidade inefável.
Cuidar, portanto, transcende a técnica. É uma arte, uma vocação, um chamado a enxergar a face de Cristo no rosto desfigurado pela dor. É a missão que Deus confia a cada um de nós, seja num hospital, no balcão de uma loja, na sala de aula ou no seio da nossa própria família.
Que o Senhor nos conceda olhos para ver, mãos para servir e um coração que saiba permanecer. Pois aprender a cuidar como Jesus cuidava é, em essência, aprender a amar como Ele amou: até o fim.
Em Cristo e no colo de Maria,
Ronaldo Chiarato

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